O presente trabalho tem por objetivo, em um sentido amplo, fazer uma reflexão – a partir da perspectiva da Psicologia Analítica Junguiana – sobre a importância do uso da escrita literária – mais especificamente do gênero conto de fada – como um instrumento arteterapêutico capaz de ativar/captar no processo criativo informações relacionadas aos aspectos sombrios de seus escritores, neste caso específico, um grupo de “recuperandos” (neologismo criado para qualificar os indivíduos em processo de recuperação penal) da APAC (Associação de Proteção e Assistência aos Condenados)[1], de Itaúna, Minas Gerais. 
Para legitimar a validade e a qualidade deste recurso artístico, faremos no primeiro capítulo uma breve retrospectiva da utilização da escrita como um instrumento de captação de informações do inconsciente, partindo de suas primeiras manifestações no campo das artes com os movimentos simbolistas, chegando até a Arteterapia, que assume para si o direcionamento da arte para além de sua função estética.
A partir deste olhar mais abrangente do uso da literatura como um recurso psicológico eficiente, no segundo capítulo, direcionaremos a nossa reflexão de modo específico para o gênero conto de fada, procurando apontar – sobretudo a partir dos estudos da psicoterapeuta junguiana Marie-Louise Von Franz – as suas características intrínsecas que o tornam tão especial para a abordagem arteterapêutica da sombra.
Depois destas considerações genéricas, abordaremos, enfim, o nosso objeto de estudo que é o conto de fada intitulado O Segredo da Caixa[2], resultado do Projeto de Oficinas Textuais denominado “Encantadores de História” ministrado em 2004 no Centro de Integração Social da APAC de Itaúna. Portanto, para uma apreciação e compreensão mais fluida de nossa análise, no terceiro capítulo faremos um resumo deste conto, apresentando os elementos narrativos mais relevantes do ponto de vista simbólico para a confirmação de nossas hipóteses e afirmações que serão apresentadas nos dois próximos capítulos.
 No quarto capítulo, então, analisaremos a presença da sombra na primeira dimensão que chamaremos de textual, na qual buscaremos mostrar – a partir do jogo de contraposições e projeções entre os personagens e das relações entre eles e alguns elementos historiográficos – indícios da sua manifestação no texto. No quinto capítulo, por sua vez, analisaremos a segunda perspectiva do aparecimento da sombra na obra, a qual chamaremos de dimensão contextual, pois neste viés lançaremos mão do contexto de produção de seus autores – o sistema carcerário e sua ideologia evangelizadora – para justificar em que medida ela surge e se manifesta no processo criativo literário.
E, por fim, no sexto e último capítulo, apresentaremos a terceira perspectiva do aparecimento da sombra neste estudo que extrapola a própria narrativa e a qual denominaremos dimensão psicossocial, uma vez que busca, agora, refletir sobre a condição dos encarcerados não mais como escritores, mas sim como a própria sombra coletiva de uma sociedade que ainda não tem condições de encarar a si própria.





[1] APAC (Associação de Proteção e Apoio ao Condenado) Itaúna, Minas Gerais. http://www.apacitauna.com.br/.
[2] MONT'ALVERNE NETO, R. de. (org.) O Segredo da Caixa. Itaúna: Grupo Encantadores de Histórias/APAC, 2006.

INTRODUÇÃO

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