Análise da sombra na dimensão psicossocial:
Os encarcerados como a Sombra Coletiva
Neste
capítulo, com o objetivo de ampliar a perspectiva apresentada no capítulo
anterior e sobretudo salientar a importância e relevância de atividades
arteterapêuticas em contextos socioculturamente fragilizados, abriremos mão do
conto de fada analisado até então e refletiremos de maneira específica sobre a dimensão psicossocial na qual ele se
enquadra. Deste modo, nossa proposição é aqui relacionar os autores dO Segredo da Caixa não mais como
escritores, mas sim como “personagens” arquetípicos que representam a própria
sombra social e coletiva.
Além
disso, esta reflexão associativa propõe um outro olhar em relação ao sistema
penal brasileiro tradicional que, como é de conhecimento público, disponibiliza
aos encarcerados condições bastante precárias, com irrisórias possibilidades de
recuperação nas prisões e poucas oportunidades de readaptação à vida social
quando libertos[1]. Em
muitos casos, há um processo de deterioração humana onde indivíduos
aprisionados por pequenos furtos acabam penetrando na dimensão sombria dos
presídios e passam a desenvolver suas potencialidades criminosas.
Mont´Alverne
propõe no posfácio dO Segredo da Caixa
uma reflexão que se constitui como uma excelente introdução para nossas
próximas considerações. Segundo ela:
A
situação carcerária no Brasil é amplamente conhecida de todos os brasileiros
minimamente informados. O sistema penal brasileiro vem sofrendo modificações
legislativas, muitas vezes por pressão da sociedade, que vê no recrudescimento
das penas e do aparato penitenciário a solução para a questão da segurança pública
e da defesa social. Porém, cresce o número de encarcerados e cresce também a
criminalidade. Não é mais possível nem útil nos negarmos a reconhecer que os
criminosos são parte do mesmo tecido social no qual vivemos e do qual também
fazemos parte.[2]
Mont´Alverne,
então, situa-nos não apenas em relação à situação do sistema prisional na
atualidade, mas principalmente sugere como ele deveria atuar, levando em
consideração que todos somos partes integrantes e indissociáveis de uma mesma
teia social. Se do ponto de vista sociológico esta relação é bastante evidente
e não carece de muitos argumentos para se fazer aceita, do ponto de vista
psicológico a relação entre estes grupos marginalizados e a sombra coletiva
também não oferece grandes obstáculos.
Como foi
apontado nos capítulos anteriores, a Sombra é uma realidade arquetípica do
gênero humano e o seu reconhecimento é imprescindível para o processo de
individuação. Quando não a reconhecemos dentro de nós mesmos, sem dúvida, ela
será projetada de duas maneiras: “individualmente, na forma da pessoa a quem
atribuímos todo o mal; e coletivamente, na sua forma mais geral, como o
Inimigo, a personificação do mal.”[3]
E é desta maneira que são concebidos os prisioneiros do sistema
carcerário brasileiro. Apesar das iniciativas louváveis como a da APAC de
buscar uma nova abordagem prisional, inclusive partindo da própria
ressignificação do termo que os qualifica, a perspectiva geral da sociedade em
relação aos presidiários ainda é bastante negativa. Hoje, sobretudo por conta
dos motins recorrentes dos presos, tem-se consciência das condições precárias e
desumanas nas quais eles vivem, porém o estigma ainda permanece e isto vale
inclusive para aqueles que cumpriram as suas penas e tentam reinserir-se na
sociedade.
Uma das razões pelas quais isso acontece justifica-se pela consciência
dualista e maniqueísta judaico-cristã introjetada no pensamento ocidental de
que aqueles que cometeram algum tipo de delito devem ser punidos, castigados e
afastados do convívio social, como se representassem algo demoníaco e
pecaminoso. Não estamos aqui, é claro,
dizendo que indivíduos transgressores não necessitam de algum tipo de medida
punitiva, o que pretendemos afirmar é que um olhar diferenciado para estes
grupos sociais (e aqui legitimar-se-ia a importância de ações arteterapêuticas
que considerem o indivíduo em sua totalidade) levando em consideração o fato de
que eles representam em termos simbólicos o nosso próprio lado sombrio é de
suma importância para a recuperação efetiva não só dos próprios presidiários,
como também da própria sociedade.
Enquanto este tipo de consciência não for assumida como condição sine qua non no trato aos encarcerados,
continuaremos diante de uma sociedade que sofre as consequências de não encarar
a sua própria sombra. Ela exigirá cada vez mais que os bandidos vão para as
cadeias e que suas penas sejam cada vez mais altas, enquanto o medo instaurado
a obrigará a se armar cada vez mais e a viver enjaulada entre grades de
proteção. É nessa medida que a Sombra buscará a sua compensação “na narrativa
da vida” diante de uma negativa tão intensa!
É óbvio que o “mal” da sociedade não se justifica apenas por conta de
uma má administração penitenciária. Mesmo que pensássemos em uma sociedade em
que a relação entre a sociedade “livre” e a “aprisionada” fosse mais amistosa,
ainda assim aspectos sombrios viriam à tona, tendo em vista a complexidade
humana cuja dualidade é intrínseca, transcendendo esta condição apenas na
individuação. Entretanto, o que gostaríamos de observar é que esta projeção
realizada pela sociedade em relação aos detentos pode ser vista a partir de uma
ótica muito mais saudável e coerente.
A projeção de uma imagem coletiva da Sombra em relação aos detentos é um
processo absolutamente natural, uma vez que, sim, estes indivíduos encontram-se
aprisionados por terem ido ao encontro de suas próprias dimensões obscuras.
Jerry Fjerkenstad, diz-nos que os criminosos:
são aqueles que nos vendem coisas que fingimos não querer – como cocaína
e sexo, como aparelhos de som, bicicletas e carros roubados. [...] Eles fazem
sua vida explorando os domínios ocultos da natureza humana que negamos através
da cisão e da hipocrisia. Eliminar todos os criminosos não eliminaria todos
estes vícios – os vícios expressam algo essencial sobre a natureza humana, algo
que precisa ser alquimicamente trabalhado, captado e incorporado; não apenas
aprisionado, abandonado e usado como bode expiatório[4].
O que levou estes indivíduos a penetrar na dimensão do crime pode ter
diferentes razões do ponto de vista da realidade cotidiana (decepção amorosa,
falta de emprego, frustração profissional, etc.), entretanto, pelo viés psicanalítico
junguiano, poderíamos dizer que todos foram impulsionados por um movimento
interno profundo de ordem psíquica a realizarem as suas ações. E, ainda nesta
ótica, mesmo aqueles que tenham sido julgados de maneira injusta e cumpram pena
por crimes que não cometeram – o que, infelizmente, não se constitui como uma
raridade no sistema penitenciário brasileiro – mesmo eles, no plano simbólico,
estão diante de uma situação promovida pelas suas próprias necessidades mais
intrínsecas e inconscientes.
Partindo destas reflexões, já que o nosso grande medo metafísico é, na
perspectiva mitológica, ainda a hybris
grega, ou seja, o receio de ultrapassarmos a medida e sermos engolidos pela
nossa própria sombra, nada mais aconselhável em relação à evolução da psique
coletiva do que, ao invés de rechaçar o conhecimento daqueles que caíram em
desmedida, apropriar-se de suas vivências a fim de que não incorramos nos
mesmos erros cometidos por eles.
É nesse viés, abrindo mão de uma relação unilateral em que os presos são
essencialmente ruins e que precisam da ajuda e da piedade da sociedade e, ao
contrário, assumindo uma perspectiva bilateral em que eles também possuem algo
a ensinar para aqueles que estão dentro dos limites impostos pelo status quo é que conseguiremos encontrar
uma possível alternativa para a resolução – ou amenização – desta mácula
social. Do mesmo modo que os mitos existem para apontar o caminho do herói e
nos direcionar para a trilha certeira de nossa individuação, é importante que
percebamos o quão válido e rico também é o percurso do anti-herói, na medida em
que ele nos fornece as pistas que não devemos seguir e as atalhos que não
devemos percorrer.
[1]DAUFEMBACK, V. Condições
de aprisionamento e condições de aprendizagem de encarcerados. Dissertação
(Mestrado). Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, Florianópolis, 2005,
p. 167. Embora esta dissertação tenha sido realizada há oito anos,
infelizmente, as condições penitenciárias no formato tradicional não
apresentaram modificações substanciais nos dias de hoje, como é possível tomar
conhecimento cotidianamente através dos veículos de comunicação. Deste modo,
levando em consideração que esta informação é um dado de fácil comprovação,
optamos por manter em nossas referências exclusivamente esta obra como base
referencial à dimensão penitenciária no país.
[2] MONT´ALVERNE. R. de. Op.
Cit., p. 39.
[3] ZWEIG, C. & ABRAMS, J. (orgs.). Op. Cit., p. 38.
[4] Id. Ibid., p. 250.