Análise da sombra na dimensão extratextual:
O contexto de produção como agente de bloqueio e ruptura
Como foi
dito no capítulo anterior, o conto O
Segredo da Caixa apresenta uma estrutura tradicional em relação ao seu
gênero, respeitando um trajeto dialético de transformação de seus personagens
principais. Neste capítulo, vamos propor uma análise ainda simbólica,
entretanto, lançaremos mão do contexto de produção da obra, ou seja, sairemos
do universo essencialmente narrativo e passaremos a levar em conta as condições
e as circunstâncias específicas em que a narrativa foi criada, para tentarmos
legitimar a nossa tese de que por causa disso há uma espécie de ruptura e
bloqueio na construção da história, caracterizando-se como uma manifestação da
sombra coletiva de seus “autores encarcerados”.
A ruptura
de que fazemos menção – antecipada no fim do capítulo anterior – diz respeito à
representação simbólica do personagem alfaiate na obra. Para que possamos
entendê-la é preciso que levemos em consideração, primeiro, a condição social
dos seus escritores que, como foi dito logo no início deste trabalho,
caracterizam-se como indivíduos aprisionados por terem cometido infrações na
sociedade e que atualmente vivem dentro de um sistema penitenciário específico
que pretende dispor “de um método de valorização
humana, vinculada à evangelização,
para oferecer ao condenado condições de recuperar-se”[1].
E, segundo, é preciso que entendamos o simbolismo do personagem alfaiate
que, de modo geral, é visto nos contos de fada como uma representação do deus
romano Mercúrio, o deus da comunicação, do comércio e, o que é mais relevante
para este contexto específico, “o deus dos ladrões, dos criminosos e de outros
habitantes do submundo”[2].
Marie-Louise Von Franz diz-nos que:
O
alfaiate é uma figura bem conhecida dos contos de fada [...] e tem algo a ver
com o arquétipo do trapaceiro, que supera os seus inimigos através da
inteligência e do pensamento ligeiro. Segundo as ideias medievais, o artesanato
se ligava a certos planetas que protegiam determinados ofícios. O planeta
mercúrio protegia cozinheiros e alfaiates. Então aqui encontramos a ligação: o
alfaiate pertence a Hermes, ou seja, Mercúrio, o deus trapaceiro, com todas as
suas qualidades de inteligência versátil, pensamento rápido e capacidade de
transformação[3].
Nesse
sentido, o que nos chama a atenção e o que denominados de ruptura narrativa é
na verdade uma reconfiguração deste personagem em O Segredo da Caixa que aparece no conto com aspectos positivos,
porém sem a rapidez e a sagacidade mercuriana convencional, impossibilitando-o
de conseguir manter a salvo a caixa do rei. Nesta história, o alfaiate perde a
sua desenvoltura tradicional e mantém-se como um personagem relativamente
apagado em relação aos contos clássicos em que ele aparece driblando obstáculos
e superando conflitos.
Nossa
hipótese principal, levando em consideração o contexto de produção e a
sequência narrativa, é de que este personagem tenha sido obnubilado justamente
pelo fato de apresentar de modo inconsciente as características mercurianas de
comunicação, movimento e sobretudo furto.
Características estas que dentro do contexto carcerário são
intencionalmente enfraquecidas por parte do poder vigente que pretende
recuperar os indivíduos encarcerados.
Afinal,
de modo geral, os detentos – apesar de comunicarem-se entre si – possuem uma
restrição comunicativa com a sociedade. Seus movimentos são limitados a um
restrito espaço físico. E, o que nos parecer ser a interdição mais relevante –
sobretudo pelo fato de estarem inseridos dentro de um contexto de evangelização
–, precisam assimilar que os crimes cometidos são erros e que o furto é uma
ação abominável. Sendo assim, acreditamos que exista neste processo de
escritura uma interferência relevante do universo real para o universo
ficcional.
Esta
perspectiva acaba adquirindo maior peso quando percebemos que na sequência da
narrativa um outro personagem surge para cumprir a função que o alfaiate não
conseguiu desempenhar: o pescador. É ele quem irá encontrar a caixa mágica e
entregá-la ao príncipe mau propiciando assim a transformação necessária para o
desfecho positivo da história. O pescador, ao contrário do alfaiate que nos
remete ao universo do panteão pagão greco-romano cujos deuses assumiam tanto as
características positivas quanto negativas, é um símbolo reconhecidamente
cristão.
Além
disso, duas outras ações dentro da narrativa corroboram nossa tese de que o
personagem alfaiate sofre uma espécie de apagamento de suas características
arquetípicas relacionadas ao deus Mercúrio em detrimento de uma simbologia mais
ligada ao universo cristão: logo após a perda da caixa mágica, o personagem,
primeiro, envergonha-se – e, como
sabemos, os sentimentos de vergonha e culpa, nas culturas ocidentais, fundamentam
as concepções de moralidade da estrutura religiosa judaico-cristã[4]
– e, segundo, após envergonhar-se, ele esconde-se em um mosteiro que, no
contexto medieval dos contos de fada, se subentende católico.
Levando
em consideração esta conjuntura específica, é possível deduzir que esta “releitura”
do personagem alfaiate tenha sido causada por uma espécie de repressão interna
dos “recuperandos” em relação às suas próprias sombras. Hipótese aceitável se
considerarmos que, diferente de um contexto de criação e produção literária em
que o artista a priori encontra-se
livre tanto corporal quanto mentalmente, este grupo possui limitações críticas
que não poderiam deixar de ser refletidas de algum modo na narrativa
criada. Esta quebra na configuração
clássica do personagem muito provavelmente tenha sido um movimento
inconsciente, já que em nenhum momento do conto, como afirmamos em parágrafos
anteriores, o alfaiate apresenta características negativas, relacionadas ao
roubo. Entretanto, o Inconsciente nunca opera, é claro, por vias óbvias e “descriptografá-lo”
é sempre um processo hermético[5]!
Nesta
ótica, é possível perceber que o processo de escrita criativa pode além de
encontrar caminhos alternativos para a execução de um trajeto simbólico,
apontar em seus “desvios narrativos” questões ainda mais profundas que dizem
respeito às condições de vida de seus escritores. Neste caso específico, o
texto nos sugere um caminho investigativo, na medida em que nos possibilita
criar hipóteses a respeito de algo que pode estar se escondendo, por conta de
uma necessidade e/ou repressão vigente e social.
De
maneira geral, quando um problema corporal é profundo os seus sintomas aparecem
no princípio de modo sutil, quase que imperceptível. É papel do arteterapeuta,
a partir da análise simbólica, encontrar as manifestações deste desequilíbrio e
verificar as suas ramificações em outras partes do corpo físico, psíquico e,
neste caso específico – em que pretendemos usar o canal literário como recurso
investigativo da sombra de seus escritores –, do corpo textual.
Devido a
esta necessidade, buscamos encontrar no ato de escritura dO Segredo da Caixa outros
indícios que nos levassem a crer que havia ali alguma interferência
psicossocial que justificasse nossas suspeitas de quebra e bloqueio na
narrativa. E foi no posfácio da obra que nos deparamos com a seguinte
informação apresentada por Mont´Alverne, coordenadora das oficinas textuais
ministradas aos encarcerados:
Durante os primeiros exercícios de
improvisação e criação coletiva de histórias, uma em especial chamou a atenção
pela riqueza de detalhes decorrente de uma compreensão cada vez maior da força arquetípica que começava a
respirar no discurso dos recuperandos. Foi “O Segredo da Caixa”, que ficou inacabada[6]. (grifos nossos)
Na sequência,
Mont´Alverne informa-nos que, pelo fato de a história não ter sido acabada, foi
aberto um concurso veiculado também pela internet para a escolha do melhor
final. Mais de cem sugestões foram enviadas de diversos estados do país e o
final escolhido por unanimidade é aquele apresentado aqui no capítulo III. A
coordenadora, consciente da importância simbólica do acontecimento, propõe uma
reflexão bastante coerente em relação a este intercâmbio estabelecido entre os
recuperandos e a sociedade livre. Segundo ela, este fato propiciou “uma
situação real de inclusão social, que começava a chegar timidamente através de
um suporte artístico, e isso teve uma força significativa.”[7]
É
evidente que sua reflexão é pertinente e revela uma consequência positiva de um
trabalho que, embora a priori não se
propusesse em sua essência arteterapêutico, conseguia atingir resultados
positivos através de um recurso artístico. Entretanto, o que gostaríamos de
analisar aqui do ponto de vista simbólico é o fato curioso de que exatamente
esta história – que adquiria uma força arquetípica, como afirmou Mont´Alverne
na penúltima citação acima – tenha sido interrompida. No posfácio da obra não
há nenhuma explicação do motivo pelo qual isto aconteceu, porém, nele
encontramos uma informação que nos parece indicar um possível viés
interpretativo e, além disso, dialogar e reforçar nossa hipótese primeira, a de
que a substituição do personagem alfaiate pelo pescador revela um possível
bloqueio na aceitação por parte dos recuperandos de suas próprias sombras.
A
informação encontrada é a de que o fim da história escolhido – por unanimidade!
– começa com a seguinte frase: “Abra a caixa, pai. Não me obrigue a usar a violência”[8],
dita pelo filho mais velho ao rei. De conhecimento deste dado, é possível
depreender que talvez os recuperandos tenham interrompido a história (e/ou a
história tenha interrompido os recuperandos!) justamente pelo fato de eles
terem percebido (e/ou a história ter exigido) a necessidade de uma intervenção
mais drástica na ação – processo convencional para a construção do clímax
narrativo – e se depararam com um bloqueio pelo fato de não ser possível fugir
– mesmo que no plano ficcional – de uma ação agressiva.
É
importante dizer que não supomos, é claro, que os recuperandos tenham
introjetado tão fortemente um comportamento antiviolência por conta do processo
de evangelização do Sistema APAC. Este dado não foi verificado para ser usado
como pressuposto. Nossa suposição é de que uma vez que nas oficinas de criação
– coordenadas por Mont´Alverne que é contadora de histórias (mas que também é
advogada ligada ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais) – estes indivíduos
aprisionados encontram-se, mesmo que de modo indireto, ao mesmo tempo, diante
de uma representante da sociedade civil livre e diante de uma representante da
Ordem Vigente, é muito provável, portanto, que sejam acionados recursos
psíquicos inconscientes de autodefesa e proteção por parte deste grupo que se
encontra em posição social já bastante fragilizada.
Levando
em consideração este contexto específico, poderíamos supor que, consciente ou
inconscientemente, os recuperandos tenham se sentido impelidos a interromperem
a narrativa sob pena de revelarem seus impulsos violentos, impulsos estes que
dentro de um sistema penitenciário precisam ser controlados e arrefecidos. E,
mais do que isso, precisam ser explicitados, para que exista a possibilidade,
em alguns casos, de diminuição penal por bom comportamento.
Neste sentido, podemos perceber a
potencialidade que o recurso literário pode assumir se for usado em ações
arteterapêuticas com grupos sui generis,
como é o caso do analisado neste estudo. Como pudemos verificar, a escrita
literária promove o surgimento de conteúdos inconscientes de seus autores que
podem estar contidos tanto na narrativa em si quanto na sua interrupção, quando
o “pacto narrativo” (aquele que cria no autor a nítida separação entre o mundo
real e o ficcional) impõe uma suspensão da escrita, denunciando – como uma
espécie de agente do “sistema imunológico textual” – algum problema que precisa
de maior atenção.
Quando
pensamos nos recursos ficcionais da literatura como véus protetores para a
incursão em dimensões mais profundas da psique humana, estamos geralmente nos
referindo a circunstâncias “normais” de criação, ou seja, estamos concebendo um
escritor ideal, com sua relativa liberdade e o seu amplo conhecimento de mundo.
Entretanto, é importante que levemos em consideração que este contexto criativo
não se caracteriza da mesma forma quando estamos lidando com indivíduos encarcerados,
cuja liberdade é limitada por uma dupla condenação:
Primeiro
pela Justiça, e, nesse caso, [...] pelos seus próprios delitos praticados.
[...] Segundo, pela Linguagem. Esta o aprisiona num estado de pouca mobilidade,
pois, muitas vezes, é pobre em imagens e vazia de sentidos; e, ainda que não o
seja, a repetição incessante de um mesmo “trecho” da própria história – esse
que o levou à condição de presidiário – tende a fixá-lo num estranho curriculum
repetido como uma litania que aos poucos o caracteriza como lenda viva, que
fascina e atrai a curiosidade mórbida em seu entorno[9].
Sendo
assim, é possível entender em que medida todo e qualquer conteúdo que surge –
ou, no caso, que não surge – no processo de escrita destes recuperandos será
necessariamente rico de significações. E, como dissemos antes, não é possível
negligenciarmos tanto o fato de eles terem a suas vidas restritas e vigiadas,
quanto o fato de eles estarem dentro de um contexto de evangelização no momento
em que produziram as suas obras.
É nesta
ótica que compreendemos o comportamento coletivo destes escritores que
simplesmente interromperam o fluxo de escrita por conta de uma possível
percepção da manifestação da sombra na narrativa que vinha adquirindo um peso
simbólico e arquetípico. Esta leitura que propomos, como foi dito acima,
justificava-se sobretudo pelo fato de a história escolhida para dar
continuidade ao trabalho grupal, entre mais de cem opções, tenha sido
justamente aquela que propõe um ação de violência entre pai e filho, tão típica
em casos de condenação judicial.
Deste
modo, além da questão da inclusão social proposta por Mont´Alverne, temos aqui
um fenômeno que nos parece ainda mais profundo e interessante. Do nosso ponto
de vista, este diálogo extramuros representou em nível simbólico uma espécie de
solicitação de consentimento inconsciente dos recuperandos direcionada à
sociedade livre. E esta, ao que nos pareceu evidente, simbolicamente, deu o
aval para que a dimensão sombria surgisse no texto e propiciasse um movimento
de transformação positiva. Afinal, foi graças a esta ação violenta do futuro
rei que a caixa mágica foi aberta e, a partir daí, ele começou a dar indícios
de uma mudança gradativa de seu nível de consciência que se efetiva no final da
história.
Nesta
perspectiva, o exemplo desta atividade realizada com o grupo de recuperandos da
APAC deixa entrever um caminho de diálogo possível e mais eficiente entre duas
faces de uma mesma sociedade que precisa uma da outra para encontrar soluções
adequadas para os seus problemas mais profundos e sistêmicos. Do ponto de vista
sociológico, como vamos analisar no capítulo seguinte, todos fazemos parte de
uma mesma rede e não existe uma dissociação plena entre integrantes de um mesmo
sistema social, mesmo que, em muitos casos, a sociedade “livre” feche os olhos
diante de sua própria sombra e tente escondê-la em grandes caixas gradeadas,
escuras, insalubres e, de preferência, longe da urbe.
[1] DAC (Diretoria de Políticas de APAC e
Co-Gestão). http://www.dac.mg.gov.br/. (grifos nossos).
[2] ZWEIG, C. &
ABRAMS, J. (orgs.). Op. Cit., p. 249.
[3] VON FRANZ, Marie-Louise. A sombra e o mal nos contos de fadas. Op.
Cit., p.30. Em outro momento do texto, a autora diz-nos também que “numa
parábola alquímica, o espírito Mercúrio é descrito como alfaiate dos homens”
(p. 32).
[4] ARAÚJO, Ulisses F. “O
sentimento de vergonha como regulador moral.” Disponível em: http://www.uspleste.usp.br/uliarau/textos/artvertentes.pdf.
[5]Como nosso trabalho aborda
sobretudo o estudo das palavras enquanto símbolos e/ou signos
plurissignificativos, aqui propomos intencionalmente o jogo entre os termos
“Hermes” e “hermético”, porém é adequado afirmar que, apesar de uma frequente
confusão etimológica, este último vocábulo faz referência a Hermes Trismegisto,
nome dado pelos neoplatônicos, místicos e alquimistas ao deus egípcio Thoth, e
não a Mercúrio.
[6]
MONT´ALVERNE,
R. de. Op. Cit., p. 39.
[7] Id. ibid.
[8] Id. Ibid., p.29 (grifos nossos).
[9] Id. Ibid., p. 41.