Análise da sombra na dimensão textual:

A dinâmica antitética das polaridades como projeções da sombra


 O Segredo da Caixa apresenta uma narrativa absolutamente comum aos contos de fada. Sua estrutura respeita as exigências tradicionais deste gênero em que há uma estabilidade – representada pela tranquilidade do modesto reino no começo da história – um conflito – representado pelo desejo do filho mais velho de se apoderar da caixa mágica e a consequente necessidade de obnubilar o poder de seu pai – um desfecho – a caixa chega às mãos do príncipe mau, mas pelo fato de ele não conseguir abri-la é obrigado a solicitar o auxílio do rei que lhe conta a verdade sobre o objeto propiciando ao filho o arrependimento – e uma nova estabilidade – representada pela união do pai e seus filhos e a transformação do príncipe mau em um rei justo e poderoso.
Como é possível perceber, tal movimentação representa um percurso arquetípico, uma vez que manifesta o trajeto do ser humano em busca do seu próprio desenvolvimento psíquico, passando por processos de desequilíbrio e chegando, através de um movimento dialético, a um novo ponto de equilíbrio ainda mais adequado. É por conta disso que os contos de fada assumem uma grande importância como recurso de trabalho arteterapêutico. Jung já afirmava a importância deste gênero ao contrapô-lo com os mitos e lendas. Segundo ele, “nos mitos [e] lendas obtém-se as estruturas básicas da psique humana através da grande quantidade de material cultural. Mas nos contos de fada, existe um material [...] muito menos específico e [por isso] oferecem uma imagem mais clara das estruturas psíquicas”[1]. 
Nesta perspectiva, mesmo que as histórias aparentemente possam parecer simples são carregadas de informações simbólicas ricas em conteúdos de nível inconsciente. No caso dO Segredo da Caixa, é evidente que se esmiuçássemos a narrativa de modo mais intenso encontraríamos um número relativamente grande de elementos complexos. Entretanto, levando em consideração a delimitação de nosso tema, nos ateremos apenas a alguns pontos específicos que nos pareceram mais significativos para a defesa de nossa tese. Sendo assim, o primeiro elemento a ser analisado na história é evidentemente a presença de uma “caixa mágica” que esconde um segredo e costura toda a narrativa. A caixa, embora por suas características intrínsecas como, por exemplo, a sua capacidade de guardar, proteger e, em algumas circunstâncias, sufocar, remeta-nos de modo direto ao universo feminino, também apresenta uma relação simbólica com os conteúdos da sombra.
Isto justifica-se pela sua função de manter no escuro aquilo que não será usado e precisa ficar guardado e/ou escondido. De maneira geral, quando guardamos algo em uma caixa, não a deixamos à vista, mas guardamos também a própria caixa em um lugar de difícil acesso: dentro de uma caixa maior, em algum lugar escondido do guarda-roupa, embaixo da cama, no sótão ou no porão. Processo este que deixa entrever as distintas camadas que envolvem aquilo que nos desfazemos e “guardamos” em nosso inconsciente.
No caso deste conto, esta relação de gradação é evidente, pois primeiro este objeto mágico havia sido escondido pelo rei em seu castelo. Este, sabendo das ameaças do filho mau, resolve procurar um outro esconderijo, a casa de seu amigo alfaiate que, por sua vez, percebendo que o príncipe mau está fazendo incursões fora do castelo, resolve ir em busca de um outro lugar ainda mais seguro. No caminho, tropeça em um esquilo e deixa a caixa cair no mar. Eis, então, que, do ponto de vista simbólico, o objeto mágico é “guardado” efetivamente no Inconsciente Coletivo, representado de modo inequívoco pelas águas marítimas.
Não propomos, é claro, que a caixa em si represente a sombra dentro da narrativa, mas sim que ela está também dentro da dinâmica das polaridades presente em inúmeros elementos da história. Ou seja, a caixa tanto esconde quanto revela; tanto pode ser aberta quanto fechada. E no caso específico deste conto, é um elemento que precisa ser escondido e ao mesmo tempo está sendo procurado. Movimento este similar à relação da psique com os aspectos sombrios, afinal estamos desde a formação de nosso ego escondendo os nossos conteúdos “malignos”, para depois passarmos as nossas vidas procurando-os novamente, pois “não se pode chegar perto do Self e do significado da vida, sem que se passe pelo fio da navalha da cobiça e das trevas, e dos aspectos sombrios da personalidade.”[2]
O poeta estadunidense Robert Bly, utilizando-se de uma outra imagem simbólica como detentora dos conteúdos sombrios – a sacola (símbolo que possui similaridades evidentes com a caixa) – diz-nos que, na cultura ocidental, “passamos a nossa vida até os 20 anos decidindo quais as partes de nós mesmos que poremos na sacola e passamos o resto da vida tentando retirá-las de lá. Algumas vezes parece impossível recuperá-las como se a sacola estivesse lacrada”[3]. E é exatamente esta “caixa/sacola” que o príncipe mais velho está em busca de modo desesperado. É ela quem desperta o seu lado violento e maligno, mas ao mesmo tempo somente ela poderia, a partir da ativação de seus instintos mais baixos, de sua própria sombra, trazer à tona um processo de transformação profundo e positivo no personagem.  
Lançando mão novamente da afirmação de Marie-Louise Von Franz de que nos contos de fada “todo mundo é sombra de todo mundo”[4], podemos afirmar que nesta obra da mesma maneira que a caixa mágica caracteriza-se como a sombra do príncipe mau – já que ela ativa a sua dimensão mais obscura – o príncipe mau, por sua vez, caracteriza-se como a sombra do príncipe bom, o filho mais novo do rei.
Este tema, dos irmãos opostos, na verdade, é bastante recorrente não só dentro deste gênero textual, mas está presente também nas mitologias e no universo onírico. Segundo Carl Gustav Jung, que tinha um fascínio especial pelo que chamava de “o tema dos dois irmãos hostis”, esta relação dual e polarizada simbolizava, de certo modo, “todas as antíteses e, de forma especial, as duas abordagens opostas no trato com a influência do inconsciente: negação ou aceitação, realismo ou misticismo”[5].
Para que possamos entender esta dinâmica antitética é necessário que levemos em consideração o processo de formação do Ego que, como foi dito anteriormente, vai eliminando (jogando na sacola ou escondendo em caixas!) aquilo que não é concebido pela sociedade (representada pela família, pela escola, enfim, por todas as instituições sociais) como satisfatório. Surge, então, neste movimento de rejeição um “eu reprimido”, “um subproduto natural do processo de construção do Ego que acabará se tornando o seu espelho”[6], ou seja, surge a Sombra que é a antítese do Ego, do mesmo modo que o irmão mau é a oposto do irmão bom. E a totalidade só é alcançada ou, do ponto de vista desta narrativa, o Reino só é salvo e reinstaurado, na medida em que o Ego assimila a(s) Sombra(s): a caixa é encontrada e “compreendida” simbolicamente, os irmãos se unem mais uma vez, o pai perdoa o filho. 
O que nos parece também relevante mencionar para justificar a efetivação deste processo de assimilação da sombra ao final da narrativa é que, além do perdão por parte do pai em relação às ações malévolas de seu filho mais velho, o texto é finalizado com a menção da importância de todos os atos maus cometidos anteriormente pelo príncipe. Lembremo-nos de que é graças à recordação de suas ações passadas, quando quase colocou tudo a perder, que ele se tornou o rei mais justo de todos os tempos. Ou seja, o seu poder atual está intrinsecamente ligado à aceitação de seu trajeto pregresso, validando, assim, a importância de sua imersão pessoal no terreno das sombras.
 E por fim, mas não esgotando, é claro, a dimensão simbólica da obra, encontramos em O Segredo da Caixa uma outra dupla de personagens que apresenta também esta relação de polaridades em que um deles representa a sombra do outro. Estamos aqui falando das únicas personagens femininas que surgem en passant no conto de fada (sem fada!), quais sejam, a cigana, que informa o príncipe mau de que ele só conseguirá o poder se obtiver a caixa mágica incitando-o à violência, e a feiticeira, que protege o rei e o seu reino ao guardar o seu coração em uma caixa mágica.
Embora o surgimento destas personagens aconteça de modo muito rápido e sem destaque, ele chama a atenção por dois aspectos distintos. O primeiro deles é o fato de termos, ao contrário da contraposição clássica fada x bruxa, a conjuntura feiticeira x cigana, representando respectivamente o polo positivo e negativo desta totalidade arquetípica feminina. Levando em consideração as características intrínsecas do conto de fada abordadas no capítulo II que o concebem como um gênero com grande força simbólica, não há como supor que este tipo de configuração seja apenas obra do acaso ou, o que seria ainda mais ingênuo, fruto do desconhecimento por parte dos encarcerados em relação às estruturas tradicionais desta tipologia textual. Nesta perspectiva, sobretudo em um texto artístico, há sempre uma motivação interna – de modo geral, em nível inconsciente – que produz simbolicamente os conteúdos narrativos.
Neste caso, lançamos mão de uma hipótese que poderia justificar esta configuração, sem a pretensão, é lógico, de assumi-la como única. Sendo assim, em primeiro lugar, gostaríamos de fazer uma rápida reflexão sobre a caracterização da cigana como elemento negativo. E esta classificação negativa parece potencializar-se pelo fato de ela contrapor-se à feiticeira que, grosso modo, é vista sempre como uma figura maléfica nos contos de fada.
A interpretação que propomos é de que a personagem cigana tenha sido caracterizada desta forma por conta da visão coletiva que a sociedade de modo geral possui em relação a ela. Como a cultura cigana pertence a um grupo que quase não possui registros históricos, criou-se no imaginário popular uma visão pejorativa desta figura. E o que justifica, dentro da narrativa em estudo, a sua substituição pela bruxa é o fato de a cigana estar associada a práticas que fazem parte do universo da bruxaria. Ambas dominam o conhecimento das ervas, produzem filtros do amor e poções mágicas, praticam a magia com o uso dos animais e fazem encantamentos com ingredientes inusitados como, por exemplo, fios de cabelo e unhas[7].
Nesta ótica, poderíamos afirmar, apenas como uma hipótese de teor reflexivo – uma vez que uma afirmação mais efetiva a respeito desta associação só poderia ser apresentada a partir de uma investigação mais profunda da obra e quiçá do grupo de recuperandos que a realizou, o que se caracterizaria, é claro, como um tangenciamento de nossa proposta –, que esta relação configura-se também como uma espécie de projeção da sombra coletiva de seus autores direcionada a um outro grupo social marginalizado.
É evidente que aqui não pretendemos deduzir que os criadores do presente conto possuem algum tipo de rejeição explícita à cultura cigana. Este tipo de afirmação seria precipitada e equivocada, já que não há outros indícios que possam reforçá-la e sobretudo pelo fato de sabermos que existe, pelos motivos esboçados há pouco, um pré-conceito generalizado em relação a este grupo. O que buscamos é apontar unicamente para uma possibilidade reflexiva cuja importância não está em afirmar-se verdadeira ou falsa. O que julgamos importante na análise deste indício é a percepção de que mesmo conteúdos que surgem a priori “inofensivos” dentro da narrativa podem – e devem – ser olhados e analisados com muita atenção, pois atrás deles poderemos encontrar outros indícios que nos enveredarão por caminhos ainda mais profundos que, por sua vez, revelarão outras camadas psíquicas no campo do não-dito.
O outro aspecto que nos chama a atenção nesta relação entre a cigana e a feiticeira é agora o fato de esta última estar qualificada como uma figura positiva quando, como dito há pouco, dentro do universo dos contos de fada, feiticeiras e bruxas – concebidos como termos sinonímicos – são personagens que transitam na dimensão maligna da história[8]. Mais uma vez, o que pretendemos apresentar aqui não é um hipotético equívoco de seus autores, mas, sim, demonstrar como as camadas profundas do inconsciente agem de modo complexo no que diz respeito às leis de compensação entre os elementos da narrativa, promovendo processos (quase lacrados) de equilíbrio que acontecem à sombra da própria história, exigindo do leitor “dispositivos ultrassensíveis” para abrir a “caixa mágica textual”.
Para que possamos entender esta perspectiva, anteciparemos uma afirmação que será explorada mais detidamente no capítulo seguinte, qual seja, a de que um dos personagens da narrativa – o alfaiate – perde sua “força pagã” em nome de um outro personagem – o pescador – cuja simbologia está atrelada ao universo judaico-cristão. Esta informação nos é imprescindível, pois supomos que antes mesmo deste “rebaixamento” acontecer, há previamente uma espécie de manutenção/preservação – em uma camada infratextual – do caráter pagão da história, o que é de certo modo compreensível, haja vista a condição arquetípica deste gênero cuja gênese está muito além da cristã Idade Média[9]. Esta suposição é embasada no fato de a personagem positiva da dupla anteriormente citada ser classificada como “feiticeira” e não como “bruxa”. Como afirmamos há pouco, estes termos são concebidos dentro do gênero conto de fada como sinônimos, entretanto, existe uma diferenciação bastante significativa entre eles, do ponto de vista da História.
Hoje em dia, boa parte dos historiadores distingue o fenômeno da bruxaria (específico da época moderna) do da feitiçaria (mais atemporal). Segundo Laura de Mello e Souza, há uma espécie de consenso segundo o qual, por exemplo, Medéia e Canídea – personagens mitológicos pagãos – seriam feiticeiras fundamentalmente diferentes das bruxas anônimas que se queimaram na Inquisição[10]. E são estas últimas, estereotipadas como figuras velhas, horrendas e pactuantes do diabo – polo oposto de Deus – que estão presentes no universo dos contos. E é nesta ótica que podemos afirmar que se por um lado esta força pagã é enfraquecida em um dado momento da narrativa (quando se substitui o personagem alfaiate pelo pescador), em outro (quando se substitui a bruxa pela feiticeira) ela é revitalizada, estabelecendo um jogo de luz e sombra em camadas insuspeitas do conto.
Ou seja, esta simples alteração vocabular constitui-se como uma espécie de ponto de equilíbrio entre dois momentos do texto que, a princípio, não possuem uma relação explícita, porém, na dimensão simbólica pode revelar muito mais do que imaginamos, já que – como é característica essencial do símbolo[11] – nos exige tanto uma correlação fora do eixo causa/efeito quanto uma leitura que transcende a própria narrativa[12]. E é exatamente este tipo de transcendência que extrapola a rigidez estrutural do texto e dialoga com a psique do seu leitor, propondo-lhe leituras transversais, que faz do conto de fada um gênero tão propício à abordagem psicanalítica e, é claro, arteterapêutica.




[1] VON FRANZ, Marie-Louise. A interpretação dos contos de fada. (trad. Maria Elci Spaccaquerque Barbosa). São Paulo: Paulus, 1990, p. 25.
[2] VON FRANZ, Marie-Louise. A individuação nos contos de fadas. São Paulo: Paulus, 1984, p. 71.
[3] ZWEIG, Connie & ABRAMS, Jeremiah (orgs.). Ao encontro da Sombra. O potencial oculto do lado escuro da natureza humana. (trad. Merle Scoss) São Paulo: Cultrix, 1999, p. 31.
[4] VON FRANZ, Marie-Louise. A sombra e o mal nos contos de fadas. Op. Cit., p. 35. Esta afirmação é apresentada pela primeira vez neste trabalho no capítulo II, no 1º§ da página 12.
[5] ZWEIG, Connie & ABRAMS, Jeremiah (orgs.). Op. Cit., p. 90.
[6] Id. Ibid., p. 69.
[7] NIQUETTI, Gilce Francisca Primak; FONSECA, Deorlene Pacheco; TOMASI, Claudinor. Crenças e Práticas Ciganas: Um olhar da Antropologia sobre a obra Magia Cigana de Charles Leland. In: Contrato Social, Revista Eletrônica do Curso de Ciências Sociais da Faculdade Guarapuava, n. 1 – ANO 1 – 2011, passim.
[8] Observação confirmada pela teóloga, psicóloga, mestre em psicologia clínica pela PUC-Campinas e doutoranda no Depto. de Tocoginecologia da FCM/UNICAMP, Vera Lúcia Soares Chvatal em: “Contos de Fadas: histórias para crianças ou metáforas da vida humana”. Disponível em: http://www.fae.br/cur_psicologia/literaturas/A%20Bela%20e%20a%20Fera.pdf, p. 2.
[9] Reiterando a informação que foi apresentada no capítulo II (p. 10, 2º§), Marie-Louise Von Franz afirma-nos que, dentre as inúmeras teorias de origem dos contos de fada, uma delas afirma que eles são “remanescentes degenerados dos mitos”, portanto, nesta perspectiva, datariam de tempos imemoriais.
[10] SOUZA, Laura de Mello e. A feitiçaria na Europa Moderna. São Paulo: Ática, 1987.
[11] Segundo Jung, “uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além do seu significado manifesto e imediato. Esta palavra ou esta imagem têm um aspecto "inconsciente" mais amplo, que nunca é precisamente definido ou de todo explicado”. In: JUNG, C. G. O homem e seus símbolos. (trad. Maria L. P.) Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000, p. 17.
[12] Levando em consideração que a análise proposta a respeito da representação da feiticeira está vinculada aos personagens alfaiate e pescador, temos consciência de que ela também poderia estar situada dentro da dimensão contextual, no capítulo seguinte. Entretanto, como julgamos ser a relação entre feiticeira e cigana muito mais evidente e representativa neste conto, optamos por mantê-la neste capítulo que prioriza as conexões polarizadas e historiográficas dos personagens.

CAPÍTULO IV

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