O Gênero “Conto de Fada” e a Sombra
No
presente capítulo, faremos uma rápida reflexão sobre os contos de fada
procurando legitimar a sua importância como um gênero textual bastante peculiar
do ponto de vista da abordagem psicológica, por apresentar aspectos primordiais
da psique humana, principalmente no que diz respeito à sua capacidade de trazer
à tona informações relativas à sombra.
Embora seja difícil precisar a sua origem exata, os contos de fada
na configuração mais próxima da que temos hoje datam da Idade Média. Neste
período, eles não eram destinados apenas às crianças como acontece atualmente,
mas também a adultos das classes mais baixas da população como lenhadores e
camponeses. Segundo Marie-Louise Von Franz, estudiosa do gênero e colaboradora
de Jung, “as teorias a respeito
da origem dos contos de fada variam bastante: algumas dizem que são
remanescentes degenerados de mitos e doutrinas religiosas, outras afirmam que
eles provêm de uma parte degenerada da literatura”[1].
O que fica bastante
claro, entretanto, é que este gênero – cuja origem está ligada à tradição oral
– apresenta um forte caráter arquetípico, uma vez que os contos de fada (de fata, do latim fatum: destino) são passados de geração em geração e não perdem
parte de seus conteúdos essenciais, embora algumas alterações inevitáveis
aconteçam na medida em que eles vão sendo repassados oralmente ou – como é o
caso da obra que iremos analisar na sequência – na medida em que eles são
reconstruídos em contextos socioculturais sui
generis.
Deste modo, o que
pretendemos demonstrar aqui neste estudo é que tanto a manutenção das
estruturas padronizadas no decorrer do tempo quanto as rupturas surgidas por
conta dos contextos específicos de produção são recursos legítimos para a
verificação da presença da sombra dos seus autores. Com o intuito de legitimar
a nossa hipótese, valemo-nos mais uma vez do pensamento de Von Franz quando
diz-nos que:
Os contos de fada têm
uma estrutura que reflete os traços humanos mais gerais. Desempenham um grande
papel porque através deles podemos estudar as mais básicas estruturas de
comportamento. [E segundo ela] há também uma razão prática: através do estudo de contos de fada e mitos
podemos vir a conhecer certos complexos estruturais, tornando-nos mais capazes
de distinguir entre o que é e o que não é individual, e ver as possíveis
soluções[2].
(grifos nossos)
Em outras
palavras, a partir dos contos de fada é possível identificar os aspectos que
dizem respeito ao universo arquetípico do ser humano, relacionados às
estruturas das profundezas do inconsciente, comuns na psique de todos os povos
da Humanidade. E, da mesma maneira, a
partir da análise comparativa com outros contos, podemos verificar também
influências espaço-temporais muito específicas que poderão servir como recurso
de análise psicológica de seus escritores.
A
dimensão simbólica e arquetípica dos contos de fada pode ser percebida tanto no
percurso dos personagens principais concebido como um trajeto mítico – de modo
geral, no início da história tudo se encontra em harmonia e por conta de algum
tipo de intervenção mágica, a ordem é quebrada e vários obstáculos surgem até
que se encontre novamente o equilíbrio – quanto pela presença constante de
elementos mágicos como espelhos, tapetes, anéis, talismãs, caixas, etc., todos
eles representando símbolos profundos da psique.
Entretanto,
poderíamos dizer que a sua maior força, associada e potencializada pelas
características apontadas acima, está na sua capacidade de unir os opostos –
movimento de todo ser em busca de sua individuação, ou seja, do encontro com o
seu Self. Nos contos encontramos a
difícil tentativa de unir o consciente e o inconsciente, a realidade e a
imaginação, o masculino e o feminino, a luz e a sombra. Neles a dicotomia entre
o Bem e o Mal é explícita e busca, ao invés de uma visão moralista que concebe
o Bem como o certo e o Mal como errado, uma perspectiva que prescinda –
justamente pelo seu forte teor arquetípico – de uma compreensão essencialmente
racional e cartesiana, propondo, ao contrário, um olhar mais abrangente e
globalizante em relação às polaridades.
São personagens recorrentes nos contos de
fada, por exemplo, o rei bom e o rei mau, o príncipe bom e o príncipe mau, a
fada e a bruxa, a floresta e o pântano e daí por diante, evidenciando o quanto
esta dimensão literária está próxima – apesar de ser explicitamente ficcional e
fantasiosa – daquilo que concebemos como realidade. Afinal, vivemos na dualidade em busca da
transcendência e ainda estamos bastante apegados ao nosso Ego e àquilo que
julgamos certo ou errado, bonito ou feio, dividindo o mundo entre os homens
livres e dignos – aqueles que perambulam à vontade pela sociedade – e os homens
presos e indignos – aqueles que estão encarcerados nas prisões, pagando merecidamente
os seus pecados pela transgressão ao status
quo[3].
É nesta
perspectiva que este gênero literário assume um grande valor como um
instrumento arteterapêutico. Embora a sua complexidade seja um grande desafio e
a identificação da sombra em sua estrutura não seja algo muito óbvio, pois,
segundo Von Franz “todo mundo é sombra de todo mundo nos contos de fada; as
figuras são todas comparáveis entre si e possuem uma função compensatória”[4],
a sua estrutura arquetípica arraigada no inconsciente oferece um campo de
análise muito fértil.
Se esta
constatação vale para todo e qualquer tipo de paciente, no caso específico de
um grupo de indivíduos encarcerados cuja limitação cultural, de modo geral, é
bastante grande – seja pelo baixo grau de formação escolar de sua grande
maioria, seja pela inexistência de iniciativas de leitura nos presídios – os
contos de fada assumem um valor inestimável.
Afirmamos isso, pois a potência deste gênero é tão vasta que consegue
ultrapassar o tempo e o espaço, chegando inexoravelmente a todas as camadas
sociais.
Nesse
sentido, mesmo que usemos este recurso com um grupo de presidiários, eles terão
certamente conhecimento de mundo e material suficientes para produzir obras
significativas do ponto de vista simbólico. Afinal, todos os indivíduos, mesmo
pertencentes a contextos socioculturais diferentes, acabam, de um jeito ou de
outro, acessando a dimensão dos contos de fada, seja pela TV, por meio dos
desenhos animados, na escola, ou mesmo por meio do discurso oral, na conversa
entre amigos, entre familiares e com a própria vizinhança.
E dessa
forma o trabalho com os contos de fada – além de trazer à tona aspectos
sombrios que, neste contexto em específico, devem ser trabalhados com muito
cuidado e atenção numa dinâmica dialética e profunda entre o velar protetor da
ficção e o desvelar transformador da psicologia – pode fazer aflorar à lembrança
dos encarcerados as estruturas míticas já introjetadas em suas mentes desde a
infância. Estruturas estas que, mesmo travestidas de singelas e inofensivas
historinhas infantis, já revelavam simbolicamente o complexo caminho do herói
que precisava enfrentar, aceitar e assimilar a sua própria sombra para
conquistar um novo patamar de existência.
[1]VON
FRANZ, Marie-Louise. A sombra e o mal nos
contos de fadas. (trad. Maria Christina Penteado Kujawski) São Paulo:
Paulus, 1985, p. 19.
[2] Id. Ibid., p.22.
[3] Cabe mencionar aqui que esta
última visão dicotômica é posta em xeque quando fazemos referência ao universo
da política brasileira. De modo geral, existe uma espécie de valoração coletiva
negativa generalizada de que todos os políticos são corruptos e ladrões e que,
por conta de suas posições de poder, estão livres e impunes. Não nos compete
aqui julgar o grau de exatidão desta informação e muito menos abordá-la
detidamente, mas, como iremos trabalhar com o conceito de sombra coletiva no
último capítulo, gostaríamos apenas de apontar para a complexidade da sua
projeção em diferentes dimensões sociais.
[4] VON FRANZ,
Marie-Louise. Op. Cit., p. 35.