As origens da literatura como processo criativo a partir da investigação do inconsciente e a sua função arteterapêutica


A escrita artística como processo criativo a partir da investigação do inconsciente não é algo recente. Desde o período Simbolista, no século XIX, os artistas, insatisfeitos com as concepções cientificistas da classe dominante burguesa, utilizavam-se deste recurso para construir suas obras de arte, mergulhando no universo irracional, em que imagens simbólicas são mais potentes que conceitos intelectuais. Ao contrário da visão naturalista que vigorava até então, o simbolismo buscava o intangível, o oculto e o misterioso tornando por consequência as suas produções de difícil compreensão, exigindo a sensibilidade e a intuição de quem as tentasse decifrar.
No início do século XX, quando as estruturas artísticas estavam novamente enrijecidas, presas à forma e a paradigmas neoclássicos e parnasianos, mais uma vez um movimento inconsciente surge para quebrar todos os padrões. Estamos falando aqui do período Modernista, mais especificamente da sua vanguarda, que surgiu com o objetivo de destruir com a estagnação que havia sido instaurada no domínio das artes.
Deste modo, manifesta-se o Futurismo, o Dadaísmo, o Expressionismo, o Cubismo e o Surrealismo, todos eles buscando em camadas profundas da psique conteúdos significativos para a realização de suas obras artísticas. Este último movimento, inclusive, lançou mão da técnica psicanalítica da “escrita automática”, prática de liberação do fluxo de consciência na escritura com o objetivo de acionar conteúdos inconscientes, revelando assim a influência direta das teorias freudianas que começavam a aparecer com força neste período.
No final deste mesmo século, surge então a literatura fantástica que irá trazer para o plano da narrativa universos que se contrapõem ao que concebemos como real, buscando colocar em xeque as nossas percepções de realidade. Nas obras deste movimento, é possível perceber que o inverossímil funde-se com o verossímil, dando às escrituras um caráter absolutamente onírico e similar às dimensões recônditas da psique, em que passado, presente e futuro se fundem e monstros, mortos, árvores, pedras podem falar, por exemplo. Por conta disso, as obras também apresentam aspectos sombrios e muitas vezes bizarros, deixando entrever a penetração da sombra individual dos seus autores ou da sombra coletiva do universo em que estão inseridos.
Tendo em vista esta constatação óbvia de que a dimensão da arte constitui-se como um terreno fértil para a manifestação de conteúdos inconscientes – tanto relacionados à psique de seus escritores, quanto ao inconsciente coletivo acessado por eles – a Arteterapia surge como um instrumento capaz de utilizar-se destas manifestações de modo direcionado com o objetivo de aproveitar o material produzido não como um resultado apenas estético, mas sim como um conteúdo legítimo para a compreensão e o entendimento da psique do seu autor, ou – em circunstâncias muito particulares – de seus autores, como é o caso da obra que iremos analisar mais adiante, construída coletivamente.
É na Arte, sobretudo, que se pode trazer à tona os conteúdos tabus da sociedade de maneira protegida sem que os mecanismos de rechaço e repúdio sejam facilmente acionados[1]. A manifestação artística possui por natureza um caráter ambíguo e polissêmico que vela e desvela o dito e o interdito e este movimento configura-se inevitavelmente como um recurso importantíssimo para lidar – e, se abordado pelo viés arteterapêutico, curar – os traumas de um determinado paciente/escritor.
Um exemplo clássico de projeção benéfica – que se configura como apenas uma das múltiplas possibilidades arteterapêuticas literárias – acontece quando o leitor facilmente se reconhece no vilão e, mais do que isso, se permite reconhecer, protegido pelo pacto ficcional. Tal processo o aproxima de sua própria sombra de modo inconsciente sem que ele necessariamente caia nas armadilhas maniqueístas entre o Bem e o Mal e se culpe pela sinceridade de seus sentimentos perversos. E este tipo de ação/reação por si só já se constitui como um resultado positivo, do ponto de vista do equilíbrio emocional e psíquico do indivíduo, seja ele apenas um leitor ou um paciente.
Ou seja, mesmo que o processo de escritura ou leitura de uma obra literária não seja usado como um instrumento terapêutico, não é possível passar ileso por ele. É muito comum, por exemplo, ouvirmos relatos de escritores que assumem metaforicamente suas criações como partos ou que atribuam à escrita um caráter catártico de expurgo e/ou cura. Do mesmo modo, um leitor nunca é o mesmo após a leitura de uma boa obra literária. Lin Yutang, em sua obra A importância de viver, diz-nos que:

 “O homem que não tem o costume de ler está aprisionado num mundo imediato, relativamente ao tempo e ao espaço. Sua vida cai numa rotina fixa; acha-se limitado ao contato e à conversação com uns poucos amigos e conhecidos, e só vê o que acontece na sua vizinhança imediata. Não há como escapar a tal prisão. Mas quando toma em suas mãos um livro, penetra num mundo diferente e, se o livro é bom, vê-se imediatamente em contato com um dos melhores conversadores do mundo. Este conversador o transporta a um país diferente, ou a uma época diferente, ou lhe confia alguns de seus pesares pessoais, ou discute com ele uma forma especial ou um aspecto da vida de que o leitor nada sabe. Um autor antigo o põe em comunhão com um espírito morto há já muito tempo, e, à medida que lê, começa a imaginar como seria esse autor antigo fisicamente e que espécie de pessoa seria. [...] é este um privilégio que deve causar inveja às pessoas que vivem encerradas na sua prisão corporal. Tal mudança de ambiente é na verdade semelhante a uma viagem, no seu efeito psicológico.”[2] (grifos nossos)

É exatamente por conta desta complexidade que a obra literária (tanto em seu processo de escrita, quanto de leitura) possui uma forte potência enquanto recurso arteterapêutico.  Se a sua função positiva pode ser comprovada no aprimoramento intelectual e psicológico de qualquer leitor, o seu uso direcionado em pacientes em busca de tratamento constitui-se como um recurso altamente eficiente. E isto, como buscaremos comprovar, torna-se ainda mais evidente quando estamos falando de um grupo específico com necessidades óbvias de recuperação psicossocial, como é o caso dos “recuperandos” da APAC. Pois é possível depreender, a partir da leitura do texto de Yutang, que mesmo aqueles que se encontram aprisionados fisicamente possuem condições de encontrar – através da arte e da terapia - um caminho para um outro tipo de libertação.






[1] Na verdade, esta é uma potencialidade inata da literatura que tem a sua força maior ou menor dependendo, é claro, do contexto sociocultural em que ela está inserida. Em alguns casos, quando o grau de afrontamento aos tabus é excessivo, a sociedade puritana tende a revoltar-se, deixando em evidência o lugar específico de penetração da sombra coletiva. Um exemplo típico e reconhecido é o que aconteceu com o escritor francês Gustave Flaubert quando escreveu Madame Bovary, em 1857. Na obra, o autor cria uma personagem sonhadora pequeno-burguesa (Emma Bovary) que se entrega ao adultério em busca de sua felicidade. O livro foi considerado escandaloso para a época e o autor julgado em tribunal por atentado aos preceitos morais e religiosos. Em sua defesa, Flaubert – que, ao final, foi inocentado – manifestou-se com a consagrada frase “Emma Bovary c´est moi!” (“Emma Bovary sou eu!”), o que vai ao encontro do que mencionamos no corpo do texto ao afirmarmos a respeito da complexidade psicológica desta dimensão artística.

[2] YUTANG, Lin. A importância de viver. (trad. Mario Quintana) Porto Alegre: Globo, 1941, p. 305.

CAPÍTULO I

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